segunda-feira, outubro 03, 2005

Cântico Negro - José Régio

Algumas pessoas nunca morrem, de tão excepcionais! Segue um deles...



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

quinta-feira, agosto 18, 2005

Companheiros de Mia Couto

É um poeta fantástico, este Mia Couto! Tem vindo sempre a ser uma agradável surpresa... Partilho hoje convosco:

quero

escrever-me de homens

quero

calçar-me de terra

quero ser

a estrada marinha

que prossegue depois do último caminho


e quando ficar sem mim

não terei escrito

senão por vós

irmãos de um sonho

por vós

que não sereis derrotados


deixo

a paciência dos rios

a idade dos livros


mas não lego

mapa nem bússola

por que andei sempre

sobre meus pés

e doeu-me

às vezes

viver


hei-de inventar

um verso que vos faça justiça


por ora

basta-me o arco-íris


em que vos sonho

basta-te saber que morreis demasiado

por viverdes de menos

mas que permaneceis sem preço


companheiros

quarta-feira, abril 27, 2005

A minha avó morreu

E eu morri mais um pouco, hoje!

Avó

Ontem foi diagnosticado à minha avó, um tumor nos pulmões.
Tenho chorado imenso - que cobardia a minha - e nem consigo dormir.

Vejo-a tão fraca... e ainda nem começaram a fazer a quimioterapia.
Primeiro, terão de fazer um exame aos pulmões, com biópsia - Mais sofrimento avó.

Ela não falar, aborrece-me, porque sei que a deixa desgostosa.

Tenho de estar com ela. Tenho de ajudar.
Como quando ela estava ao meu lado, a fechar a minha mão dentro da dela, quando eu era uma criança.