segunda-feira, junho 21, 2010

DA SOCIOLOGIA À SOCIOLOGIA DA ARTE

“Pobre é estar sózinho!” Afirmações como esta de Mia Couto in A Chuva Pasmada, conduzem-nos a uma questão incontornável: O que torna os seres humanos em seres inevitavelmente sociais? A Sociologia procura compreender o que une o homem, e que fenómenos ocorrem quando as pessoas se unem em grupos e agem entre si. Trata-se, portanto, de um objecto de estudo tão alargado quanto infinito.

A Sociologia é uma ciência, na medida em que, antes de elaborar uma teoria, o sociólogo comprova os factos. Para Émile Durkheim “o indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são as suas origens e as condições de que depende.” Parece-me de valor realçar o grandioso compromisso da Sociologia, que consiste no conhecimento científico da sociedade, e o nobre objectivo a que se propõe, de projectar no futuro melhores realidades sociais.

“A vida é breve, a arte é longa.” Quão veraz mostra ser a afirmação de Hipócrates, pois se nos é possível conhecer os factos históricos, culturais, políticos, e religiosos, as origens e o progresso da humanidade ao longo dos tempos e das épocas, isso deve-se, quase exclusivamente, aos legados de arte, que tão privilegiadamente herdámos. Em Sociologia da Arte pretende-se entender e reflectir, se não mesmo descobrir e explicar, as relações entre a arte e a sociedade, relações essas que são recíprocas e dinâmicas, pois tanto o meio social influencia a produção artística, como a arte condiciona o contexto social.

Em Sociologia da Arte procura-se estudar a dimensão social do facto artístico, não apenas do contemporâneo, mas em toda a sua dimensão histórica. Interessa ao sociólogo entender o contexto em que a obra é criada ou produzida, como é desenvolvida, difundida e até como é aceite. Vicenç Furió defende que a obra de arte não é meramente um produto social, passivo, mas é activo, construído dentro da sociedade e que exerce influência nela por criticar e transformar situações e valores.

A arte manifesta-se a todos. Não é possível passar-lhe inane. O que a define é precisamente a capacidade que possui de se expressar, de produzir emoções, de desencadear comportamentos em quem a observa, sejam sentimentos agradáveis ou desagradáveis, de amor ou ódio, de paixão ou rejeição, de indiferença ou perturbação, como afirmou Georges Braque, “L’art est fait pour troubler. La science rassure” in Le jour et la nuit. A arte é uma linguagem social que produz impacto social. Importa ao sociólogo estudar não somente os horizontes de expectativa dos receptores, como a multiplicidade de efeitos que se manifestam nos inúmeros momentos de recepção de uma obra.

O sociólogo estuda igualmente o artista enquanto sujeito e actuante, enquanto produtor social, num determinado espaço e tempo ou em determinadas relações sociais, pois ele não é intangível, nem imune às influências do meio social em que vive. As obras de determinados autores, os métodos que desenvolveram e exploraram, marcaram a ciência e a arte das futuras gerações e, inevitavelmente, marcaram-nos a nós. Não me canso de reverenciar Eça de Queirós, que disse que “A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da Vida – que é não ser apagado de todo pela Morte”, pois sinto que a sua obra o marcou profundamente, e muito além de perpetuar a sua existência em cada palavra que escreveu, o imortalizou.

A arte tem o poder de agir como força de ligação social entre indivíduos.
A arte tem poder.


(Trabalho Somativo para Sociologia da Arte - 31119
Lisboa, 8 de Maio de 2008
Curso Ciências Sociais – Psicologia Social)

domingo, junho 20, 2010

Há esse lugar estranho

onde renovam as memórias,
onde roubam a alma,
onde vageio vazia de razão,
e nada faz sentido.
Sempre que me perco
é lá que me encontro.
E como qualquer lugar
que passa a ser familiar,
temos saudades quando o deixamos.
Por isso sei que sempre vou voltar
a esse lugar estranho…
talvez o meu lugar.