terça-feira, novembro 18, 2014

Cantas Bem Mas Não Me Allegro!

Conversa na Clave de :
- Pára Sol, não isso a Mi!
- Porquê,? Não ?
- Si, mas agora não, tive um Acidente!
- Oh, vá ! Isso Soa a Falsete! Já és um Dó Maior! A tua Escala é a única que não possui Acidentes. Mas arranjas sempre alguma Fuga Musical.
- Não, Sol! Agora não!
- Olha , estou cansada desta Dissonância em que vivemos. Está na altura de fazermos uma Pausa e um Intervalo.
- Mas porquê? Qual o Motivo?
- Temos Andamentos diferentes: Tu és Lento e eu Allegro. Estamos muito Desafinados.
- Olha, Sol, deixa-me por-te uma Ligadura, vamos fazer um Da Capo.
- Desculpa, mas não dá. A nossa relação já está muito Marcato. Vou voltar para a minha Clave.
Sol fechou a porta da Clave com muito , entristecida. Tinha perdido 4 Tempos da sua vida. Estava com Fusa. Sabia que tinha de subir dois andares na Partitura para regressar à sua Clave, mas sentou-se ali, na Pauta, a ver as Notas passar... e Solfejava muito.
vinha a descer a Partitura, ouviu Solfejar, e perguntou com voz Grave:
- Olá! Tu hoje estás um Sol menor. Que se passa?
- Ah , tenho o meu coração Sustenido. Deixei o e estou de regresso à minha Clave.
- Anda, vem comigo, que eu faço-te uma Batida.
Sol acenou que estava de Acorde e seguiu à sua Clave. Assim que fechou a porta houve uma Vibração entre os dois. Então, depois de beberem a Batida Forte, a Dinâmica entre eles foi Crescendo. deitou a Sol no Piano e com a Pulsação Acentuada avisou:
- Sempre tive uma Colcheia por ti Sol, adoro o teu Ritmo.
- Ah , tu pões-me a tocar tão Baixo!
Morais da história:
1) Contrabaixos não há argumentos.
2) Nota que se preze, não deve desafinar muito, ou corre o risco de ouvir as suas notas tocarem nas claves dos outros... os tempos que forem precisos!
Carla Trindade, Luanda, 17 Novembro 2014

domingo, novembro 16, 2014

Encontros Fatais

Salmonella cruza-se com a amiga na casa-de-banho.
De sorriso irónico, Legionella, aparentemente tranquila, aplica baton junto ao espelho e pergunta-lhe, pau sa da men te:
- E n t ã o,   a m i g a,  c o m o   e s t á   a   c o r r e r   o   j a n t a r   c o m   o   m e u   n a m o r a d o ?…
Salmonella desfaz imediatamente o sorriso e, de olhos esbugalhados e cor alterada, diz:
- Com o teu quê, amiga…?  – e acrescenta, mostrando-lhe um anel solitário, como confirmação - o teu namorado acaba de me pedir em casamento.
- Ai! Que me falta o ar!… - Legionella fica azul e leva as mãos aos pulmões, encostando-se ao lavatório, que fica cheio de gotículas de água, perfeitas para infecções. Abre a clutch, tira o iPhone, e mostra a amiga, fotos íntimas com o noivo dela, com quem namora.
- Mas o que é isto!? – Exclama Klebsiella, castanha de raiva, que ouvira tudo desde a sanita - Tu andas a dormir com o meu marido, e tu queres casar com ele?
- Calma! Componham-se amigas! – pede Salmonella, a mais experiente de todas – Não há dúvidas de que o plano é estragar a nossa amizade… Sozinha, posso tratar-lhe da saúde. Mas, juntas, seremos muito mais eficientes e eficazes.
Acenam a cabeça, condescendentes.
- Ok! – afirma uma.
- Quando? – questiona a outra.
- De imediato! Não há tempo a perder!
E delineiam uma estratégia infalível.
Cá fora, na sala do restaurante, ouvem-se os seus risos. Mas ninguém percebe nada, pois estas amigas são três bactérias extremamente discretas.
Salmonella sai da casa de banho, e beija o noivo ao passar por ele. Sentando-se à sua frente, de lábios cuidadosamente infectados com o baton da amiga, diz-lhe, embevecida:
- Toma, amor, experimenta o meu ovo escalfado!
Sorri, enquanto ele se lambuza na gema de ovo, com o melhor preparado que ela alguma vez tinha feito.
Uma hora de conversa depois, ele fica zonzo e com calores. Alarga a gravata, abre o colarinho da camisa, enquanto o suor escorre pela testa. Não querendo dar parte fraca, disfarça, sorrindo e continua a conversar.
Meia hora depois, está completamente descontrolado. Sente enjoos e febre alta. Corre para a casa de banho, sem dizer nada à noiva pois era incapaz de falar, e encosta-se ao lavatório contaminado pela forma mais grave de Legionella. Começam os tremores, tosse seca, dores musculares, dores no peito, náuseas, vómitos e estado alterado de consciência.
Aflito, precipita-se para a sanita, contaminada pela Klebsiella, e começa a ter ataques de taquicardia, hipotermia, aflição respiratória, hipotensão arterial e inchaço dos órgãos…
Desidratado, caído no chão da casa de banho fechada, enquanto os seus órgãos entram em falência, observa, com visão turva, as três amadas em pé, à sua volta, sorridentes e vestidas de preto. Salmonella é a 1ª a falar, pois é a mais velha:
- Burro! Vieste meter-te com três bactérias perigosas, esqueceste a toxemia... agora morres de Septicemia!
- Descobrimos que és um companheiro de merda. Esperamos que gostes da tua última morada – diz Klebsiella.
Legionella, a mais viajada, finaliza:
- Como somos queridas, chamámos um amigo, para acabarmos contigo mais depressa. Ébola, podes entrar!
Moral da história: Se já mal têm capacidade para lidar com uma bactéria, não se metam com muitas ao mesmo tempo.

Carla Trindade, Luanda, 14/11/2014

Zé Azar

Era o Zé Azar.

Tinha um curso superior inacabado,
Vivia numa casa sem telhado
E nenhum vidro.

Andava de metro com um passe roubado
E escrevia, histórias tristes,
para um jornal falido.

Por onde passava, chovia…                        todo o dia.

Uma vez, encontraram um poema seu
escrito num carro abandonado,
E prometeram-lhe uma homenagem.

Esperou, esperou, esperou…

No dia em que morreu, casualmente,
Atropelado, por uma ambulância em serviço,
Não apareceu ninguém no funeral,
Porque indicaram no jornal
O cemitério errado.

Nem o Padre lhe levou uma flor,
Nem disse uma única palavra,
Pois esquecera a Bíblia,
E, de cor, não se lembrava de nada.

Trovejou muito nessa noite demorada.

No dia seguinte, o Sol brilhava,
quando apareceu na sua campa,
o mais fino mármore,
com o seu nome escrito a dourado,
e milhares de coroas,
em sua honra, no cemitério, por todo o lado.

Deram o seu nome a uma Alameda.
Erigiram-lhe uma estátua, numa Praça principal.
Fizeram-lhe uma canção
e um Memorial.

Publicaram o seu primeiro livro,
Sucesso literário!
Recebeu 10 prémios numa semana.

No dia em que foi considerado génio à escala mundial,
Encontraram no bolso direito do seu único fato,
amarrotado,
Guardado no roupeiro,
sem roupa e sem portas…
O talão vencedor do Euromilhões!

Morais da história:
1)     ‘É preciso ter azar!’
2)     ‘A esperança, é a ultima a morrer.’

Carla Trindade, Luanda, 13/11/2014