Salmonella cruza-se com a amiga na casa-de-banho.
De sorriso irónico, Legionella, aparentemente tranquila, aplica baton junto ao espelho e pergunta-lhe, pau sa da men te:
- E n t ã o, a m i g a, c o m o e s t á a c o r r e r o j a n t a r c o m o m e u n a m o r a d o ?…
Salmonella desfaz imediatamente o sorriso e, de olhos esbugalhados e cor alterada, diz:
-
Com o teu quê, amiga…? – e acrescenta, mostrando-lhe um anel solitário, como
confirmação - o teu namorado acaba de me pedir em casamento.
- Ai! Que me falta o ar!… - Legionella fica
azul e leva as mãos aos pulmões, encostando-se ao lavatório, que fica
cheio de gotículas de água, perfeitas para infecções. Abre a clutch, tira o iPhone, e mostra a amiga, fotos íntimas com o noivo dela, com quem namora.
- Mas o que é isto!? – Exclama Klebsiella, castanha de raiva, que ouvira tudo desde a sanita - Tu andas a dormir com o meu marido, e tu queres casar com ele?
- Calma! Componham-se amigas! – pede Salmonella,
a mais experiente de todas – Não há dúvidas de que o plano é estragar a
nossa amizade… Sozinha, posso tratar-lhe da saúde. Mas, juntas, seremos
muito mais eficientes e eficazes.
Acenam a cabeça, condescendentes.
- Ok! – afirma uma.
- Quando? – questiona a outra.
- De imediato! Não há tempo a perder!
E delineiam uma estratégia infalível.
E delineiam uma estratégia infalível.
Cá
fora, na sala do restaurante, ouvem-se os seus risos. Mas ninguém
percebe nada, pois estas amigas são três bactérias extremamente
discretas.
Salmonella sai da casa de banho, e
beija o noivo ao passar por ele. Sentando-se à sua frente, de lábios
cuidadosamente infectados com o baton da amiga, diz-lhe, embevecida:
- Toma, amor, experimenta o meu ovo escalfado!
Sorri, enquanto ele se lambuza na gema de ovo, com o melhor preparado que ela alguma vez tinha feito.
Uma
hora de conversa depois, ele fica zonzo e com calores. Alarga a
gravata, abre o colarinho da camisa, enquanto o suor escorre pela testa.
Não querendo dar parte fraca, disfarça, sorrindo e continua a
conversar.
Meia hora depois, está completamente
descontrolado. Sente enjoos e febre alta. Corre para a casa de banho,
sem dizer nada à noiva pois era incapaz de falar, e encosta-se ao
lavatório contaminado pela forma mais grave de Legionella. Começam os tremores, tosse seca, dores musculares, dores no peito, náuseas, vómitos e estado alterado de consciência.
Aflito, precipita-se para a sanita, contaminada pela Klebsiella, e começa a ter ataques de taquicardia, hipotermia, aflição respiratória, hipotensão arterial e inchaço dos órgãos…
Desidratado,
caído no chão da casa de banho fechada, enquanto os seus órgãos entram
em falência, observa, com visão turva, as três amadas em pé, à sua
volta, sorridentes e vestidas de preto. Salmonella é a 1ª a falar, pois é a mais velha:
- Burro! Vieste meter-te com três bactérias perigosas, esqueceste a toxemia... agora morres de Septicemia!
- Descobrimos que és um companheiro de merda. Esperamos que gostes da tua última morada – diz Klebsiella.
Legionella, a mais viajada, finaliza:
- Como somos queridas, chamámos um amigo, para acabarmos contigo mais depressa. Ébola, podes entrar!
Moral da história: Se já mal têm capacidade para lidar com uma bactéria, não se metam com muitas ao mesmo tempo.
Carla Trindade, Luanda, 14/11/2014


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