quinta-feira, agosto 17, 2006

Serradura de Mário de Sá Carneiro

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da "Capital"
Pelo nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil - partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "Viva a Alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la - decidido -
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Paris, Setembro de 1915

segunda-feira, outubro 03, 2005

Cântico Negro - José Régio

Algumas pessoas nunca morrem, de tão excepcionais! Segue um deles...



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

quinta-feira, agosto 18, 2005

Companheiros de Mia Couto

É um poeta fantástico, este Mia Couto! Tem vindo sempre a ser uma agradável surpresa... Partilho hoje convosco:

quero

escrever-me de homens

quero

calçar-me de terra

quero ser

a estrada marinha

que prossegue depois do último caminho


e quando ficar sem mim

não terei escrito

senão por vós

irmãos de um sonho

por vós

que não sereis derrotados


deixo

a paciência dos rios

a idade dos livros


mas não lego

mapa nem bússola

por que andei sempre

sobre meus pés

e doeu-me

às vezes

viver


hei-de inventar

um verso que vos faça justiça


por ora

basta-me o arco-íris


em que vos sonho

basta-te saber que morreis demasiado

por viverdes de menos

mas que permaneceis sem preço


companheiros

quarta-feira, abril 27, 2005

A minha avó morreu

E eu morri mais um pouco, hoje!

Avó

Ontem foi diagnosticado à minha avó, um tumor nos pulmões.
Tenho chorado imenso - que cobardia a minha - e nem consigo dormir.

Vejo-a tão fraca... e ainda nem começaram a fazer a quimioterapia.
Primeiro, terão de fazer um exame aos pulmões, com biópsia - Mais sofrimento avó.

Ela não falar, aborrece-me, porque sei que a deixa desgostosa.

Tenho de estar com ela. Tenho de ajudar.
Como quando ela estava ao meu lado, a fechar a minha mão dentro da dela, quando eu era uma criança.

quinta-feira, setembro 16, 1999

Poema ao Pai

Despedacei a solidão,
Cessei o meu pranto inútil,
Procurei encarnar no genuíno vigor do silêncio
Tão enternecedor como fútil.

Parei
Porque o tempo presente
Fere devagar,
Dilacera,
Enquanto estás ausente.

Parei
Porque te perdi
E saiu força e vida de mim.

Parei
Para esboçar um novo rumo
E ladear meu iminente fim.

Sim,
Alanceei a solidão, Pai
Como punição,
Para vencê-la pela humilhação,
Para a executar
Devagar...
E te vingar!

Desempenho ainda com orgulho
O meu nobre dever de te defender,
Qual guardiã do teu clã
Das tuas proezas,
Qual protectora da tua ténue imagem
Sem defesas,
Passiva e emulada por toda a alma vã e aviltada.

Parei por um pouco
E não mais,
Para mostrar-lhes que a razão me conduz;
E com coragem e veleidade
Exponho a verdade
Estendendo-lhes luz.

Prossigo,
submissa ao Soberano Universal
de Quem aguardo o reencontro merecer.
De braço erguido,
sustentarei até o final
a justeza do teu nome que me recuso conter!


Ao meu Pai: José Fernando Ferreira Trindade
(falecido a 31-05-1994)
Carla Trindade Cardoso

sábado, janeiro 09, 1993

Pensar... "uma tarefa que exige tempo para pensar" (Exercício para Filosofia)

Às vezes penso, que pensar o que eu penso, não se devia pensar.
Se todos pensarem o que eu penso, não pensam em mais nada senão pensar.
E normalmente, é melhor não pensar, do que pensar. Porque pensar um pensamento, não é pensar, é estar pensativo.
Ainda há pensativos que não pensam.
Somos também capazes de pensar no que já pensámos, quando repensamos.
Aquilo que agora penso, é que pensar o que eu penso, é o que todos pensam que estou a pensar.
Pensar é pensarmos no que pensaríamos se todos pensassem que pensamos o que todos pensam.
Neste caso, ninguém pensa no pensamento, só pensam no que pensaram antes de pensar no pensamento e já não pensam, já foi pensado.
Eu quero pensar muito.
E vou fazer que as minhas mãos percorram o pensamento e o moldem para me sentir pensadora.
E os meus braços ajudam-me a pensar.