“Pobre é estar sózinho!” Afirmações como esta de Mia Couto in A Chuva Pasmada, conduzem-nos a uma questão incontornável: O que torna os seres humanos em seres inevitavelmente sociais? A Sociologia procura compreender o que une o homem, e que fenómenos ocorrem quando as pessoas se unem em grupos e agem entre si. Trata-se, portanto, de um objecto de estudo tão alargado quanto infinito.
A Sociologia é uma ciência, na medida em que, antes de elaborar uma teoria, o sociólogo comprova os factos. Para Émile Durkheim “o indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são as suas origens e as condições de que depende.” Parece-me de valor realçar o grandioso compromisso da Sociologia, que consiste no conhecimento científico da sociedade, e o nobre objectivo a que se propõe, de projectar no futuro melhores realidades sociais.
“A vida é breve, a arte é longa.” Quão veraz mostra ser a afirmação de Hipócrates, pois se nos é possível conhecer os factos históricos, culturais, políticos, e religiosos, as origens e o progresso da humanidade ao longo dos tempos e das épocas, isso deve-se, quase exclusivamente, aos legados de arte, que tão privilegiadamente herdámos. Em Sociologia da Arte pretende-se entender e reflectir, se não mesmo descobrir e explicar, as relações entre a arte e a sociedade, relações essas que são recíprocas e dinâmicas, pois tanto o meio social influencia a produção artística, como a arte condiciona o contexto social.
Em Sociologia da Arte procura-se estudar a dimensão social do facto artístico, não apenas do contemporâneo, mas em toda a sua dimensão histórica. Interessa ao sociólogo entender o contexto em que a obra é criada ou produzida, como é desenvolvida, difundida e até como é aceite. Vicenç Furió defende que a obra de arte não é meramente um produto social, passivo, mas é activo, construído dentro da sociedade e que exerce influência nela por criticar e transformar situações e valores.
A arte manifesta-se a todos. Não é possível passar-lhe inane. O que a define é precisamente a capacidade que possui de se expressar, de produzir emoções, de desencadear comportamentos em quem a observa, sejam sentimentos agradáveis ou desagradáveis, de amor ou ódio, de paixão ou rejeição, de indiferença ou perturbação, como afirmou Georges Braque, “L’art est fait pour troubler. La science rassure” in Le jour et la nuit. A arte é uma linguagem social que produz impacto social. Importa ao sociólogo estudar não somente os horizontes de expectativa dos receptores, como a multiplicidade de efeitos que se manifestam nos inúmeros momentos de recepção de uma obra.
O sociólogo estuda igualmente o artista enquanto sujeito e actuante, enquanto produtor social, num determinado espaço e tempo ou em determinadas relações sociais, pois ele não é intangível, nem imune às influências do meio social em que vive. As obras de determinados autores, os métodos que desenvolveram e exploraram, marcaram a ciência e a arte das futuras gerações e, inevitavelmente, marcaram-nos a nós. Não me canso de reverenciar Eça de Queirós, que disse que “A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da Vida – que é não ser apagado de todo pela Morte”, pois sinto que a sua obra o marcou profundamente, e muito além de perpetuar a sua existência em cada palavra que escreveu, o imortalizou.
A arte tem o poder de agir como força de ligação social entre indivíduos.
A arte tem poder.
(Trabalho Somativo para Sociologia da Arte - 31119
Lisboa, 8 de Maio de 2008
Curso Ciências Sociais – Psicologia Social)
segunda-feira, junho 21, 2010
domingo, junho 20, 2010
Há esse lugar estranho
onde renovam as memórias,
onde roubam a alma,
onde vageio vazia de razão,
e nada faz sentido.
Sempre que me perco
é lá que me encontro.
E como qualquer lugar
que passa a ser familiar,
temos saudades quando o deixamos.
Por isso sei que sempre vou voltar
a esse lugar estranho…
talvez o meu lugar.
onde roubam a alma,
onde vageio vazia de razão,
e nada faz sentido.
Sempre que me perco
é lá que me encontro.
E como qualquer lugar
que passa a ser familiar,
temos saudades quando o deixamos.
Por isso sei que sempre vou voltar
a esse lugar estranho…
talvez o meu lugar.
domingo, abril 06, 2008
terça-feira, março 04, 2008
I am the escaped one
domingo, fevereiro 24, 2008
Alone

From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
by Edgar Allen Poe
domingo, janeiro 27, 2008
MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO (mas abreviado)
do nosso Grande José Grande Almada Grande Negreiros!
POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO
BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADECEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!
O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR... MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!
O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!
O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!
O DANTAS NÚ É HORROROSO!
O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!
SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
...
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO
BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A DONA CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADECEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!
O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR... MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!
O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!
O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!
O DANTAS NÚ É HORROROSO!
O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!
SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
...
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
sexta-feira, março 30, 2007
AUSÊNCIA
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, novembro 09, 2006
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
António Gedeão, Linhas de Força
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
António Gedeão, Linhas de Força
quarta-feira, novembro 08, 2006
URGENTEMENTE
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.
Eugénio de Andrade, Antologia Breve
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
Impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.
Eugénio de Andrade, Antologia Breve
quinta-feira, agosto 17, 2006
Serradura de Mário de Sá Carneiro
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.
Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...
Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...
Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil - partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...
Vou deixá-la - decidido -
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.
Paris, Setembro de 1915
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.
Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da "Capital"
Pelo nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...
Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...
Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil - partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar "Viva a Alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...
Vou deixá-la - decidido -
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.
Paris, Setembro de 1915
segunda-feira, outubro 03, 2005
Cântico Negro - José Régio
Algumas pessoas nunca morrem, de tão excepcionais! Segue um deles...

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
quinta-feira, agosto 18, 2005
Companheiros de Mia Couto
É um poeta fantástico, este Mia Couto! Tem vindo sempre a ser uma agradável surpresa... Partilho hoje convosco:
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros
quarta-feira, abril 27, 2005
Avó
Ontem foi diagnosticado à minha avó, um tumor nos pulmões.
Tenho chorado imenso - que cobardia a minha - e nem consigo dormir.
Vejo-a tão fraca... e ainda nem começaram a fazer a quimioterapia.
Primeiro, terão de fazer um exame aos pulmões, com biópsia - Mais sofrimento avó.
Ela não falar, aborrece-me, porque sei que a deixa desgostosa.
Tenho de estar com ela. Tenho de ajudar.
Como quando ela estava ao meu lado, a fechar a minha mão dentro da dela, quando eu era uma criança.
Tenho chorado imenso - que cobardia a minha - e nem consigo dormir.
Vejo-a tão fraca... e ainda nem começaram a fazer a quimioterapia.
Primeiro, terão de fazer um exame aos pulmões, com biópsia - Mais sofrimento avó.
Ela não falar, aborrece-me, porque sei que a deixa desgostosa.
Tenho de estar com ela. Tenho de ajudar.
Como quando ela estava ao meu lado, a fechar a minha mão dentro da dela, quando eu era uma criança.
quinta-feira, setembro 16, 1999
Poema ao Pai
Despedacei a solidão,
Cessei o meu pranto inútil,
Procurei encarnar no genuíno vigor do silêncio
Tão enternecedor como fútil.
Parei
Porque o tempo presente
Fere devagar,
Dilacera,
Enquanto estás ausente.
Parei
Porque te perdi
E saiu força e vida de mim.
Parei
Para esboçar um novo rumo
E ladear meu iminente fim.
Sim,
Alanceei a solidão, Pai
Como punição,
Para vencê-la pela humilhação,
Para a executar
Devagar...
E te vingar!
Desempenho ainda com orgulho
O meu nobre dever de te defender,
Qual guardiã do teu clã
Das tuas proezas,
Qual protectora da tua ténue imagem
Sem defesas,
Passiva e emulada por toda a alma vã e aviltada.
Parei por um pouco
E não mais,
Para mostrar-lhes que a razão me conduz;
E com coragem e veleidade
Exponho a verdade
Estendendo-lhes luz.
Prossigo,
submissa ao Soberano Universal
de Quem aguardo o reencontro merecer.
De braço erguido,
sustentarei até o final
a justeza do teu nome que me recuso conter!
Ao meu Pai: José Fernando Ferreira Trindade
(falecido a 31-05-1994)
Carla Trindade Cardoso
Cessei o meu pranto inútil,
Procurei encarnar no genuíno vigor do silêncio
Tão enternecedor como fútil.
Parei
Porque o tempo presente
Fere devagar,
Dilacera,
Enquanto estás ausente.
Parei
Porque te perdi
E saiu força e vida de mim.
Parei
Para esboçar um novo rumo
E ladear meu iminente fim.
Sim,
Alanceei a solidão, Pai
Como punição,
Para vencê-la pela humilhação,
Para a executar
Devagar...
E te vingar!
Desempenho ainda com orgulho
O meu nobre dever de te defender,
Qual guardiã do teu clã
Das tuas proezas,
Qual protectora da tua ténue imagem
Sem defesas,
Passiva e emulada por toda a alma vã e aviltada.
Parei por um pouco
E não mais,
Para mostrar-lhes que a razão me conduz;
E com coragem e veleidade
Exponho a verdade
Estendendo-lhes luz.
Prossigo,
submissa ao Soberano Universal
de Quem aguardo o reencontro merecer.
De braço erguido,
sustentarei até o final
a justeza do teu nome que me recuso conter!
Ao meu Pai: José Fernando Ferreira Trindade
(falecido a 31-05-1994)
Carla Trindade Cardoso
sábado, janeiro 09, 1993
Pensar... "uma tarefa que exige tempo para pensar" (Exercício para Filosofia)
Às vezes penso, que pensar o que eu penso, não se devia pensar.
Se todos pensarem o que eu penso, não pensam em mais nada senão pensar.
E normalmente, é melhor não pensar, do que pensar. Porque pensar um pensamento, não é pensar, é estar pensativo.
Ainda há pensativos que não pensam.
Somos também capazes de pensar no que já pensámos, quando repensamos.
Aquilo que agora penso, é que pensar o que eu penso, é o que todos pensam que estou a pensar.
Pensar é pensarmos no que pensaríamos se todos pensassem que pensamos o que todos pensam.
Neste caso, ninguém pensa no pensamento, só pensam no que pensaram antes de pensar no pensamento e já não pensam, já foi pensado.
Eu quero pensar muito.
E vou fazer que as minhas mãos percorram o pensamento e o moldem para me sentir pensadora.
E os meus braços ajudam-me a pensar.
Se todos pensarem o que eu penso, não pensam em mais nada senão pensar.
E normalmente, é melhor não pensar, do que pensar. Porque pensar um pensamento, não é pensar, é estar pensativo.
Ainda há pensativos que não pensam.
Somos também capazes de pensar no que já pensámos, quando repensamos.
Aquilo que agora penso, é que pensar o que eu penso, é o que todos pensam que estou a pensar.
Pensar é pensarmos no que pensaríamos se todos pensassem que pensamos o que todos pensam.
Neste caso, ninguém pensa no pensamento, só pensam no que pensaram antes de pensar no pensamento e já não pensam, já foi pensado.
Eu quero pensar muito.
E vou fazer que as minhas mãos percorram o pensamento e o moldem para me sentir pensadora.
E os meus braços ajudam-me a pensar.
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